Sabe todas aquelas coisas que falam sobre os parisienses? Que são antipáticos, grossos, tratam todo mundo mal, não sorriem? Sei lá, pode ser que eu tenha tido sorte, mas me parece exagero.
Por exemplo. Outro dia, num impulso, resolvi comprar um espelho de chão. Só depois de pagar é que vi que o objeto em questão media 1,60 de altura e não sei quantos, mas muitos, quilos. Adicione a este cenário dois travesseiros e cinquenta cabides distribuídos em três bolsas grandes e
voilà, uma pessoa sobrecarregada. Logo ao sair da loja, uma moça perguntou se eu queria ajuda. Eu ainda achando que eu era forte o suficiente, agradeci e recusei. Ao descer as escadas – não-rolantes, claro, nessas horas a escada nunca é rolante – do metrô, apareceram mais duas meninas oferecendo uma mãozinha, e eu tive que aceitar. Ao sair da estação, dois homens passaram o espelho pela porta comigo. Na rua, um senhor me ajudou quase até a esquina da minha rua. Eles devem ter pensado, assim como eu, que idiota que eu fui ao comprar tanta coisa ao mesmo tempo, mas mesmo assim foram solícitos e simpáticos.
Não só nesse meu episódio atrapalhado, mas em diversas outras ocasiões vi gentileza por parte das pessoas. O funcionário do serviço postal que me ajudou com um sorriso no rosto quando eu estava perdida sem saber o que fazer para retirar uma encomenda. A vendedora da loja que veio me ajudar a escolher um casaco e foi amável, embora eu não tenha comprado o tal casaco. O cara da mesa ao lado que elogiou nossa escolha de vinho. As várias pessoas que, vendo a minha dificuldade em falar francês, perguntaram se eu preferia falar inglês. E não é só comigo: vi várias vezes as pessoas sendo gentis com as outras, sorrindo, se cumprimentando.
Não tenho dúvidas de que eventualmente eu vou encontrar algum parisiense de mau-humor que vai ser grosso. Mas grosseria e má vontade a gente também vê frequentemente no Brasil e ainda assim temos fama de povo alegre. O que eu quero dizer aqui é que aquele estereótipo do parisiense mau-humorado não é nada além disso: um estereótipo. Assim como nem todo carioca gosta de samba e vive na praia. Ou que todo paulista é neurótico e só pensa em trabalho. Ou que todo baiano é preguiçoso. Enfim.
Ah, e eles também dizem que tomam banho todo dia. Confirmado por mais de um francês, juro.