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sexta-feira, 30 de abril de 2010

Microblogging


É, eu confesso que meu lado preguiçoso me faz escrever mais no Twitter do que aqui. Mas sinto falta de um espaço maior que 140 caracteres...

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

La Rentrée

Nessa altura do ano, o verbo do momento na França é rentrer. É la rentrée escolar, do cinema, literária, dos espetáculos musicais e teatrais, das atividades comerciais, de tudo. Isso porque em agosto acontece um êxodo veranil, e todo mundo sai da cidade pra só voltar em setembro e aí então de fato começar o ano. É que nem a gente com o carnaval, só que em épocas do ano diferentes.

Aí é aquela coisa: em Paris, faça como os parisienses – quando ameaçou chegar agosto eu fugi da cidade. E então hoje também eu fiz a minha rentrée, lamentando só ter ficado um mês no Brasil (que passou voando!) com pessoas que amo tanto, mas feliz por ter tido esse tempinho maravilhoso no meu país.

Na verdade, tecnicamente não sei se eu posso usar rentrer pra descrever a minha volta pra Paris, porque o francês tem verbos diferentes pra designar o retorno de uma pessoa, e cada variável pode mudar qual deles se deve empregar. Assim, eles têm revenir, retourner e rentrer pra diferentes situações. Funciona mais ou menos assim:

Revenir se usa quando dizemos que alguém vai voltar pro lugar onde estamos no momento. É como se fosse o verbo venir (vir), só que a pessoa de quem estamos falando veio, foi e "re-veio". Assim, se eu estou na França e quero dizer que Fulano foi pra Inglaterra mas está voltando pra França, eu digo que "Fulano va revenir en France".

Retourner se usa independente de onde está o locutor, de uma forma mais geral. É o mais parecido com a tradução "retornar", ou seja, a pessoa de quem estamos falando vai voltar novamente ao local onde ela estava. Assim, se Sicrana tem que ir na casa de Fulana depois de já ter estado lá recentemente, eu digo "Sicrana va retourner chez Fulana".

Rentrer é um pouco mais complexo, porque se refere a voltar pra um lugar, digamos, familiar; seja voltar pra casa depois de um dia de trabalho ou voltar pro seu país depois de ter viajado, por exemplo. Ou seja, é retornar pra algum lugar que signifique casa, seja literalmente uma casinha construída ou o lugar de onde somos. Assim, se Beltrano é do Brasil, passou um tempo na França e vai voltar pro Brasil, eu digo que "Beltrano va rentrer au Brésil".

Mas é claro que isso é uma simplificação; esses são apenas alguns dos vários significados de cada verbo. Retourner, se não me engano, também pode ser usado pra descrever a devolução de alguma coisa. Rentrer é usado nesse sentido aí de retomar uma atividade que ficou parada durante as férias e que vai ser recomeçada porque eles voltaram pra casa. Ou vai ver não é nada disso; eu não sou nenhuma especialista em francês, convenhamos.

Dessa forma, rentrer não é bem o verbo apropriado agora. Ele tem muito a ver com o sentimento de casa, e apesar das minhas coisas estarem aqui, aqui não é a minha casa definitiva. A minha casa ainda não existe. A minha casa vai ser no Brasil. Aí sim eu vou rentrer de verdade.

domingo, 16 de agosto de 2009

O perigo de ficar tecnicamente mudo


Trabalhei tanto falando em inglês nos últimos anos que a minha terminologia técnica em português se atrofia a cada dia. Quase me esqueci de onde fica bombordo e boreste; me acostumei com portside e starboard side (agora com sua variação francesa: babord e tribord). Tava também no perrengue pra puxar na memória a seguinte tradução: grind. Depois de muito pensar, lembrei: lixar! É mole?!

Nomes de máquinas, ferramentas... aos poucos vou retornando ao segundo grau, quando nada disso fazia parte do meu mundo. Muitas vezes me pego pensando em inglês e quando faço anotações no meu caderninho, daquelas que só eu vou ler, lá vem a bendita língua! Não que meu inglês seja daqueles com sotaque britânico e rico em gramática, mas consigo mandar uma carta legal de reclamação pra Europcar quando é o caso (tradução livre no post anterior da Maíra).

Agora pintou na área um novo desafio: aprender os termos em francês. Sei não, viu, vou acabar esquecendo o que aprendi em inglês, não absorvendo as novas palavras em francês e ficando tecnicamente mudo no final! Vai saber...

***

Falando da língua inglesa, lembrei uma frase que eu adoro (descontem a bobagem dessa puxada sem sentido): "And the plot thickens". Tradução ruim: "E a trama fica mais densa". Tirei essa do filme Kill Bil: Vol.2, quando o vilão fala sobre a morte do peixe de sua filhinha. Pra funcionar tem que falar com a voz impostada, misteriosa, e os olhos semi-cerrados de quem está muito pensativo ou doido pra ir no banheiro. Acho que ela serve pra dizer que, se antes a trama tava esquisita, agora ela virou um bagulho muito doido!

Aliás, relembrando: na vida real, o ator que fez esse vilão, David Carradine, teve uma morte sem nexo total – igualzinho ao meu texto. Se enforcou sozinho num quarto de hotel na Tailândia, tentando bizarramente descabelar o palhaço. Acho que ele levou a sério outra famosa frase: "Vou conseguir nem que seja a última coisa que eu faça, porra!" Olhem a impagável explicação em inglês: "He died when a auto erotic sex game went wrong". Tradução: "Ele morreu quando um jogo auto-erótico deu errado". Língua fascinante essa do Harry Potter.

Quando eu ficar velhinho, to vendo que vou dar um trabaaaalho pros outros. Novo já to enchendo meu tempo escrevendo coisas assim...

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Imigrantes


Alguns livros têm a hora certa para serem lidos. Precisam da circunstância ideal, das experiências vividas, da percepção que às vezes ainda não temos quando os lemos no momento errado. "Corações Sujos", do Fernando Morais, já estava na minha estante há algum tempo, mas foi só agora que ele pediu para ser lido.

Parêntese necessário para explicar brevemente o livro. "Corações Sujos" conta a história da Shindô Remmei, ou "Liga do Caminho dos Súditos", uma seita criada em 1945 no Estado de São Paulo que negava a derrota do Japão na Segunda Guerra. Esse ponto de vista, defendido no começo através de fraudes de documentos e difusão de boatos, começou a causar cisões na colônia entre aqueles que acreditavam na vitória japonesa e aqueles que sabiam da verdade. Os métodos da Shindô passaram então da desinformação à violência e eles declaram guerra aos "derrotistas", que eram perseguidos e por vezes exterminados pelos membros da seita. Fecha parêntese.

A minha divagação na verdade não é sobre a história principal, e sim sobre o tema mais amplo que serve de pano de fundo para que ela se desenrole: a imigração. Lembrei de uma conversa que eu tive com a minha falecida avó, na qual ela me contou sobre a crise econômica do Japão no início do século passado e sobre a consequente necessidade de buscar uma vida melhor onde houvesse promessa de uma vida melhor. Para os meus bisavós, ainda existia o agravante de terem perdido tudo em um grande terremoto que aconteceu na região de Tokyo em 1923. Assim, como milhares de outros japoneses, acabaram indo para o Brasil na esperança de fazer um pé de meia e depois voltar para o Japão.

Ao chegarem, os japoneses começaram a perceber que tudo era muito diferente; não gostavam da comida, estranhavam os costumes e não sabiam falar português. O choque cultural provocou o isolamento da colônia; isolamento este que ficou ainda mais gritante na época da guerra devido ao mútuo estranhamento entre brasileiros e japoneses, cada povo defendendo um lado do conflito. Isto somado à carência de informações que chegavam ao conhecimento dos nipônicos residentes no Brasil criou a condição propícia para o surgimento da Shindô Renmei.

Então fiquei pensando se meus avós teriam também acreditado na mentira sobre o desfecho da guerra. Provavelmente eles ainda moravam em Getulina, que fica perto de Bastos e Marília, cidades citadas no livro como focos de atuação da seita. Como nenhum dos dois está vivo hoje, fico sem ter como saber, o que é uma pena.

Viajando mais ainda um pouquinho, comecei a notar os paralelos entre as histórias dos meus avós e bisavós e a minha, guardadas obviamente as devidas proporções. Também sou imigrante como eles, estranhando a língua e os hábitos do país que me acolheu. Também me sinto de certa forma isolada pelas diferenças. Também vim para longe em busca de enriquecimento, embora o meu seja cultural e o deles financeiro. Claro que nem é justo fazer uma comparação direta já que as circunstâncias são bem diferentes, mas isso fez com que eu me sentisse muito mais próxima dessas pessoas que, fora a minha avó, eu nem cheguei a conhecer. O momento de ler "Corações Sujos" não poderia ter sido mais certo para mim.