Aconteceu outro dia, sem eu perceber.
Outras pessoas que moram por aqui já tinham me contado que, em dado momento do aprendizado do francês, elas começaram a misturar esta língua com o previamente aprendido inglês. Eu achava que não ia acontecer comigo, porque minhas primeiras aulas de inglês e francês foram mais ou menos na mesma época, na escola, quando eu era pequena ainda. Embora mais tarde eu só tenha levado o inglês adiante, achei que o meu cérebro tinha criado caixinhas diferentes pra cada idioma. Engano meu.
Foi em frente à seção de queijos do supermercado. Eu tentava decidir qual queijo levar quando um americano me perguntou, em inglês, se o queijo que ele tinha escolhido era bom pra beber com determinado vinho. Não sou especialista nem numa coisa nem na outra, mas eu sabia que aquele queijo, o chevre, era um pouco forte para acompanhar o vinho branco e frutado que ele levava, e mostrei outra opção de queijo. Ao lembrar de uma terceira opção, peguei o pacote e soltei:
– But you could also take this one, si vous voulez.
Ele pegou um dos queijos e me agradeceu falando merci, merci, mademoiselle. Passei por francesa, sem querer, por causa de uma traquinagem dos meus neurônios.
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sexta-feira, 17 de julho de 2009
domingo, 31 de maio de 2009
Escargots e o Le Procope
Eu finalmente comi escargot. Foi quando a Flavia esteve aqui, há pouco mais de duas semanas, mas eu tinha esquecido de contar. Aliás, só lembrei por uma associação um tanto quanto bizarra: sonhei essa noite que estava comendo a moqueca de camarão do Berbigão (hmmm...) e não sei porque lembrei dos caramujinhos. E pra falar a verdade, prefiro a moqueca de camarão lá de Jurujuba. A gente sai de Niterói, mas Niterói não sai da gente :-)
Pois bem, comi e até achei bom depois que eu abstraí o fato de estar comendo uma criatura rastejante. O gosto da carne parece o de um fruto do mar genérico, e o que dá o gostinho mesmo é aquela manteiga de ervas deliciosa que vem recheando cada concha. Mas de toda forma ainda tinha um tempero a mais quando eu degustei a entrada tão tradicional aqui da França, já que esta degustação se passou no Le Procope.
O restaurante Le Procope é um dos mais antigos de Paris. Ele foi inaugurado em 1686 pelo italiano Francesco Procopio dei Coltelli num ponto que na época já era super in: Saint German, ali onde hoje é a rue de l'Ancienne Comédie, perto do Odéon. Pela sua proximidade com a Comédie Française, acabou virando ponto de encontro de uns sujeitos como La Fontaine, Molière, Racine, Piron, Destouches, d'Alembert, Voltaire, Rousseau e Diderot, só para citar alguns nomes.
Benjamin Franklin redigiu ali a declaração de independência dos Estados Unidos.
Durante a Revolução Francesa, os frequentadores eram Robespierre, Danton, Hébert, Marat e Desmoulins. Era ali que Marat redigia e imprimia seu jornal "L'ami du peuple", fato que hoje está anunciado na vitrine do restaurante. Foi dali que partiu a ordem dos ataques às Tuileries, em 20 de junho e 16 de agosto de 1792.
Conta a lenda ainda que Napoleão Bonaparte muitas vezes deixava seu chapéu no Le Procope como garantia da conta. Tem um lá exposto, fazendo supor que em pelo menos uma das vezes ele deu calote.
Em seu tempo, Balzac, Victor Hugo, Verlaine, George Sand e Anatole France também paravam ali para tomar um café e discutir a vida, a existência, o mundo.
E eu fui lá. Comer escargot e debater idéias nada iluministas ou revolucionárias ou intelectuais com a Flavia. Mas fina, fina toda vida, e feliz de estar num lugar tão cheio de história.
As criaturas
O garçom de bigodes de pontas viradas do Le Procope, mais parisiense impossível. Se você procurar "garçom francês" no Google, deve aparecer a foto dele
Não viu o bigode direitinho? Olha aqui, ó
Pois bem, comi e até achei bom depois que eu abstraí o fato de estar comendo uma criatura rastejante. O gosto da carne parece o de um fruto do mar genérico, e o que dá o gostinho mesmo é aquela manteiga de ervas deliciosa que vem recheando cada concha. Mas de toda forma ainda tinha um tempero a mais quando eu degustei a entrada tão tradicional aqui da França, já que esta degustação se passou no Le Procope.
O restaurante Le Procope é um dos mais antigos de Paris. Ele foi inaugurado em 1686 pelo italiano Francesco Procopio dei Coltelli num ponto que na época já era super in: Saint German, ali onde hoje é a rue de l'Ancienne Comédie, perto do Odéon. Pela sua proximidade com a Comédie Française, acabou virando ponto de encontro de uns sujeitos como La Fontaine, Molière, Racine, Piron, Destouches, d'Alembert, Voltaire, Rousseau e Diderot, só para citar alguns nomes.
Benjamin Franklin redigiu ali a declaração de independência dos Estados Unidos.
Durante a Revolução Francesa, os frequentadores eram Robespierre, Danton, Hébert, Marat e Desmoulins. Era ali que Marat redigia e imprimia seu jornal "L'ami du peuple", fato que hoje está anunciado na vitrine do restaurante. Foi dali que partiu a ordem dos ataques às Tuileries, em 20 de junho e 16 de agosto de 1792.
Conta a lenda ainda que Napoleão Bonaparte muitas vezes deixava seu chapéu no Le Procope como garantia da conta. Tem um lá exposto, fazendo supor que em pelo menos uma das vezes ele deu calote.
Em seu tempo, Balzac, Victor Hugo, Verlaine, George Sand e Anatole France também paravam ali para tomar um café e discutir a vida, a existência, o mundo.
E eu fui lá. Comer escargot e debater idéias nada iluministas ou revolucionárias ou intelectuais com a Flavia. Mas fina, fina toda vida, e feliz de estar num lugar tão cheio de história.
Não viu o bigode direitinho? Olha aqui, ó
terça-feira, 26 de maio de 2009
Comida caseira
O meu estômago também sente saudade de casa. Antes que alguém venha dizer que eu estou morando num país com uma gastronomia riquíssima e que é pra eu desencanar do feijão com arroz do Brasil, declaro que adoro a comida francesa, que não canso de descobrir novos restaurantes e novos pratos, que sei que a oferta de produtos frescos em Paris é fantástica, etcetera, etcetera. Só que o sabor da comida da nossa terra sempre desperta algo mais do que a satisfação de comer algo gostoso. É quase um afeto, um carinho, uma volta às origens pelo paladar. Parece bobagem, mas vai morar fora só pra você ver.
Assim como eu, devem ter vários brasileiros por aqui querendo comer de vez em quando uma comidinha, por assim dizer, caseira. Onde existe a demanda, logo alguém cria a oferta; assim, descobri que existem algumas lojas de produits brésiliens espalhadas por Paris. Hoje fui conferir uma delas, a Coisas do Brasil, e taí o resultado:

Só não comprei mais porque não levei meu carrinho de compras e não tinha como carregar muita coisa. Meu jantar de hoje, claro, foi feijão com guaraná Antártica. Tudo bem que o feijão ficou um pouquinho duro porque eu, ansiosa pra comer logo, tirei da panela de pressão antes do tempo. Mas e daí? Tava uma di-li-ça.
Assim como eu, devem ter vários brasileiros por aqui querendo comer de vez em quando uma comidinha, por assim dizer, caseira. Onde existe a demanda, logo alguém cria a oferta; assim, descobri que existem algumas lojas de produits brésiliens espalhadas por Paris. Hoje fui conferir uma delas, a Coisas do Brasil, e taí o resultado:

Só não comprei mais porque não levei meu carrinho de compras e não tinha como carregar muita coisa. Meu jantar de hoje, claro, foi feijão com guaraná Antártica. Tudo bem que o feijão ficou um pouquinho duro porque eu, ansiosa pra comer logo, tirei da panela de pressão antes do tempo. Mas e daí? Tava uma di-li-ça.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Le creme de leite
Ainda na linha "vamos comparar a comida do Brasil com a da França", outra coisa que tá difícil de achar aqui é creme de leite. Já tentei o crème légère, que mais parece leite aguado. Tentei o crème entière, que tem o gosto certo mas também deixa a desejar na consistência. Tentei ainda o crème fraîche, que tem a consistência perfeita, mas é azedinho que nem iogurte.
Quem lê até acha que eu sou a expert na cozinha buscando o ingrediente perfeito, né? Não, eu gostaria muito de saber cozinhar, mas não sei. Eu estou obcecando no creme de leite porque ele é matéria-prima essencial em um dos poucos pratos que eu sei fazer bem: o estrogonofe (e, vamos combinar, estrogonofe é a coisa mais fácil do mundo de fazer). A Flavia esteve aqui e fez um que ficou uma delícia, mas não ficou cremoso porque usamos o crème entière. Daí eu cismei com o assunto e comprei o crème fraîche no dia seguinte pra conferir, e o segundo estrogonofe ficou cremoso, mas azedo. Ou seja, ficou uma merd... hmm, não ficou bom.
Por fim, fui perguntar ao oráculo e acabei googlando um blog bacana sobre cozinha que esclarece que o que eu quero na verdade é o crème liquide, só que não achei esse produto em nenhum supermercado por enquanto. Mas estou levando fé na dica, então pode ser que o terceiro estrogonofe dê certo.
Quem lê até acha que eu sou a expert na cozinha buscando o ingrediente perfeito, né? Não, eu gostaria muito de saber cozinhar, mas não sei. Eu estou obcecando no creme de leite porque ele é matéria-prima essencial em um dos poucos pratos que eu sei fazer bem: o estrogonofe (e, vamos combinar, estrogonofe é a coisa mais fácil do mundo de fazer). A Flavia esteve aqui e fez um que ficou uma delícia, mas não ficou cremoso porque usamos o crème entière. Daí eu cismei com o assunto e comprei o crème fraîche no dia seguinte pra conferir, e o segundo estrogonofe ficou cremoso, mas azedo. Ou seja, ficou uma merd... hmm, não ficou bom.
Por fim, fui perguntar ao oráculo e acabei googlando um blog bacana sobre cozinha que esclarece que o que eu quero na verdade é o crème liquide, só que não achei esse produto em nenhum supermercado por enquanto. Mas estou levando fé na dica, então pode ser que o terceiro estrogonofe dê certo.
domingo, 10 de maio de 2009
A carne
A França tem fama de ter carne cara e ruim, e essa fama é meio que verdade. Não comi nenhuma carne até agora que seja tão boa quanto a que a gente come no Brasil em qualquer churrascaria de beira de estrada. Agora que comecei a conhecer os cortes, já sei mais ou menos quais são os melhores, mas mesmo assim a carne em geral é um pouco mais dura, tem que mastigar muito e não tem tanto gosto.Mas enfim. Pra facilitar a minha vida depois de algumas experiências frustradas, procurei logo um filé mignon, que imaginei ter obviamente o nome de filet mignon na França. Nada. Só achava filet mignon de porco, nunca de boi. Bem, pensei, o nome não deve ser esse mas o corte tem que existir, pois é claro que a anatomia de um boi francês é igual à de um boi brasileiro. Daí um dia desses comprei a carne mais cara do mercado pra ver se era: custava 40€ o quilo (cada pacote tem dois filés de 100 ou 150 gramas) e tinha o sugestivo nome tournedos estampado na embalagem. Bingo: era o nosso famoso medalhão de filé mignon, com o bacon em volta e tudo. Depois, olhando o rótulo direitinho, descobri que filé mignon aqui é simplesmente filet, e que apesar de não ser tão macio e saboroso quanto o brasileiro, é quase bom. Mas o preço... ai! Não dá pra comer todo dia, não.
Ou seja, na França a carne ou é cara ou é ruim, logo é de se esperar que não seja um produto tão popular como é no Brasil. Na tentativa de fazer o povo consumir mais, o Centre d'Information des Viandes (Centro de Informação das Carnes) lançou esse ano uma campanha de incentivo destacando os benefícios de uma dieta carnívora. Nesse site, o público pode conferir os tipos de corte e como cada um deve ser preparado. Fiz uma pesquisa e descobri a tradução de alguns dos cortes mais comuns mostrados no site.
- Aiguillette baronne: maminha
- Basses côtes: acém
- Bavette d’aloyau: fraldinha
- Côte de bœuf: costela
- Dessus de tranche: capa de contrafilé
- Entrecôte: ponta do contrafilé
- Faux-filet: contrafilé de lombo
- Filet: filé mignon
- Jarret: músculo
- Onglet: lombinho
- Paleron: paleta
- Poitrine: peito
- Rond de tranche: patinho
- Rumsteck: alcatra
Marcadores:
comida,
diferenças,
informações úteis
terça-feira, 10 de março de 2009
Tem feijão, mas acabou a laranja
Um dos meus mais novos passatempos é entrar nas diferentes lojas de comida que existem aqui na vizinhança. Descobri um frango ao limão que foi o melhor frango que eu já comi, alguns queijos e um azeite sensacional, entre outras coisas. Mas a descoberta mais pitoresca foi uma lojinha de produtos finos que tinha... feijão preto! Custa uns 5€ o quilo, mas tá valendo.
Fui fazer o feijão pra ver se presta, só que não tinha me dado conta de que eu não tenho panela de pressão, então o feijão demorou umas seis horas pra ficar pronto. Mas e daí? Pelo menos ficou gostoso. Até coloquei uma lingüiça pra fingir que era um paio! Claro que eu não sou profissional que nem o Alexandre, que fez uma feijoada em Madri televisionada pela TVE. Mas um dia eu chego lá.
Olha o produto final:

Ah! Um adendo só pra avisar que, se eu não responder emails ou recados logo, é porque estou sem internet em casa de novo e estou acessando do Starbucks. Ainda não tinham instalado a definitiva, mas eu estava mais tranquila por causa da conexão wi-fi (aqui eles falam “uí-fi”) da Orange. O problema é que ela não aparece mais como disponível na listinha de redes, então voltei à estaca zero e ainda perdi o dinheiro do acesso, que é pré-pago. Acho que eu ainda tinha uma hora e meia pra gastar, ou seja, aproximadamente uns 5€. Dava pra comprar mais de um quilo de feijão.
Fui fazer o feijão pra ver se presta, só que não tinha me dado conta de que eu não tenho panela de pressão, então o feijão demorou umas seis horas pra ficar pronto. Mas e daí? Pelo menos ficou gostoso. Até coloquei uma lingüiça pra fingir que era um paio! Claro que eu não sou profissional que nem o Alexandre, que fez uma feijoada em Madri televisionada pela TVE. Mas um dia eu chego lá.
Olha o produto final:

Ah! Um adendo só pra avisar que, se eu não responder emails ou recados logo, é porque estou sem internet em casa de novo e estou acessando do Starbucks. Ainda não tinham instalado a definitiva, mas eu estava mais tranquila por causa da conexão wi-fi (aqui eles falam “uí-fi”) da Orange. O problema é que ela não aparece mais como disponível na listinha de redes, então voltei à estaca zero e ainda perdi o dinheiro do acesso, que é pré-pago. Acho que eu ainda tinha uma hora e meia pra gastar, ou seja, aproximadamente uns 5€. Dava pra comprar mais de um quilo de feijão.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Pílulas de beleza
É fácil, muito fácil, engordar em Paris. A cada esquina tem uma padaria e/ou uma doceria linda de morrer com quitutes fantásticos de se olhar e, principalmente, de se comer. Aqui perto de casa mesmo tem uma tal Maison Auvray que eu tenho evitado até de passar perto, porque tem uns doces absurdos e um pão que eu não quero nem comentar. Pra ter uma noção da gravidade da coisa, a única frase em francês que eu tenho falado com a maior naturalidade é "Bonjour! Une tartelette au citron, s'il vous plaît".
Mas pra quem quer emagrecer a indústria francesa também é generosa. Todo supermercado tem refeições prontas do Weight Watchers, por exemplo. Os produtos das farmácias, então, são de enlouquecer: tem pílula para celulite, retenção hídrica, acelerador de metabolismo, flacidez... mil e uma opções pra qualquer problema, real ou imaginário, que uma mulher possa ter. Aqui, as pílulas para celulite da Innéov e da Oenobiol, que andam em voga nos noticiários de beleza do Brasil, custam bem menos do que aí - mesmo considerando que pelas bandas de cá o gasto é em euros. Estou querendo experimentar, mas primeiro tenho que mudar meus caminhos para evitar passar nas padarias, docerias e barraquinhas de crepe de Nutella.
Pensando bem, vai ser bem difícil, mas não custa tentar. Bem que eles podiam vender força de vontade em caixinha.
Mas pra quem quer emagrecer a indústria francesa também é generosa. Todo supermercado tem refeições prontas do Weight Watchers, por exemplo. Os produtos das farmácias, então, são de enlouquecer: tem pílula para celulite, retenção hídrica, acelerador de metabolismo, flacidez... mil e uma opções pra qualquer problema, real ou imaginário, que uma mulher possa ter. Aqui, as pílulas para celulite da Innéov e da Oenobiol, que andam em voga nos noticiários de beleza do Brasil, custam bem menos do que aí - mesmo considerando que pelas bandas de cá o gasto é em euros. Estou querendo experimentar, mas primeiro tenho que mudar meus caminhos para evitar passar nas padarias, docerias e barraquinhas de crepe de Nutella.
Pensando bem, vai ser bem difícil, mas não custa tentar. Bem que eles podiam vender força de vontade em caixinha.
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